quarta-feira, 19 de maio de 2010

E a poesia, a única


Foto: Renata Than

E eu deixei-o indefinido
E ele me deixava indefinida
E, independente de ser infinito
Insistíamos em definir algo
Que por si só era finito
E eu disse que daria pra ele
E ele pediu para eu me virar
Meteu-me pelas costas
O burraco ainda está lá
E nós fingiamos ter algo
E eu não sabia se tinha alguém
Ou o quê mais o poder de ser ou deter
Algo que, mesmo sem saber, faz falta
E essa falta me acompanha
Bato de porta em porta
Faço campanha
Esperando por ele
Que nunca me vê e nunca me viu
E é por isso que eu choro
Tão fundo, tão quente e tão vivo
Se ele é ele eu não sei
Sei que ele é
Sei que eu sou
Mudou-se o estado das coisas
Mas a coisa em si não
Sim, o telefone tocou
Mas eu, novamente, não fui tocada
Toco a campainha
O som é como um sino
Acorda a cidade no pino do dia
E eu só quis dormir para ver se passa logo hoje
Mas sei que amanhã será hoje
E isso perturba o meu sono
Peço vigia, fico de vigília
E a poesia, a única
Resta nessa fresta de janela
E vejo que não é a luz do dia que me guia
Mas a noite
E isso faz amanhecer em mim uma esperança
Porque na noite tem a lua
E sabe-se que ela tem fases
Então tudo pode mudar

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